Na prática, incentivar os viajantes a explorar diferentes regiões dentro de um mesmo país permite que os benefícios econômicos do turismo sejam compartilhados de forma mais ampla, alcançando mais comunidades, gerando empregos e fortalecendo o desenvolvimento regional.
Dados da South African Tourism Departure Survey 2025 mostram, no entanto, que o país ainda enfrenta um desafio significativo. Atualmente, 91% dos turistas internacionais visitam apenas uma província, enquanto apenas 9% exploram duas ou mais. Como resultado, grande parte do impacto econômico do turismo permanece concentrada em poucas áreas, deixando oportunidades importantes inexploradas em outras regiões do país.
Desigualdade na distribuição de visitantes
Os números revelam diferenças importantes entre mercados emissores. Viajantes da América do Sul apresentam o melhor desempenho quando o assunto é visitar mais de uma província, com 53% deles ampliando o roteiro pelo país. Em seguida aparecem turistas da Australásia, com 37%, e da América do Norte, com 35%. Entre os principais mercados europeus, países como França e Alemanha registram índices entre 34% e 36%.
No recorte por país, o Brasil lidera o ranking, com 55,2% dos viajantes visitando mais de uma província, seguido pelo Canadá, com 41,6%, e pela Austrália, com 37%.
Já entre os viajantes provenientes do continente África, o padrão é bastante diferente. Nesse grupo, 97% visitam apenas uma província, uma realidade fortemente influenciada pelos mercados terrestres africanos. Entre esses viajantes que entram no país por terra, apenas 2,3% percorrem mais de uma província, enquanto nos mercados africanos que chegam por via aérea o índice sobe para 11%.
Motivações de viagem e impacto econômico
O principal motivo que leva turistas a permanecerem em apenas uma província é a visita a amigos e familiares, responsável por 59% dessas viagens. Já os viajantes que percorrem diferentes regiões do país são, em sua maioria, motivados por férias, que respondem por 55% dos casos.
Essa diferença de motivação se reflete diretamente no impacto econômico gerado pelo turismo. Os visitantes que exploram várias províncias permanecem no país por mais tempo — em média 20 dias, enquanto aqueles que se concentram em apenas uma região ficam cerca de 14 dias.
O gasto médio também é significativamente maior. Turistas que percorrem múltiplas províncias desembolsam aproximadamente R26 mil por viagem, quase três vezes mais do que aqueles que permanecem em apenas uma, cujo gasto médio é de cerca de R8,8 mil.
Esse perfil de viajante também apresenta maior envolvimento com as experiências turísticas do destino. Entre os visitantes que se deslocam entre províncias, 63% visitam atrações naturais, enquanto entre os que permanecem em apenas uma província esse índice cai para 9%. As experiências com vida selvagem também são muito mais frequentes nesse grupo: 59% participam desse tipo de atividade. Além disso, 35% optam por pacotes completos de viagem, contra 21% entre aqueles que permanecem em um único destino.
Outro aspecto relevante é que os turistas que visitam várias províncias têm maior probabilidade de estar conhecendo a África do Sul pela primeira vez, enquanto aqueles que permanecem em apenas uma província tendem a ser visitantes recorrentes.
Perfis diferentes de viajantes
A idade e a composição dos grupos de viagem também ajudam a explicar esses padrões de comportamento. Os turistas que exploram diferentes províncias costumam ser mais velhos, com 43% deles acima dos 40 anos, e frequentemente viajam em casal ou com amigos.
Já entre os visitantes que permanecem em apenas uma província predominam viajantes mais jovens, que costumam viajar sozinhos e têm forte motivação para socializar ou visitar amigos e familiares.
Experiências mais ricas ao explorar o país
Para quem decide se deslocar entre diferentes regiões, a viagem tende a ser mais diversa e enriquecedora. Como resumiu um visitante dos Estados Unidos em um depoimento coletado em 2025:
“Viajar entre províncias não é apenas percorrer distâncias; é ampliar a experiência, encontrar hospitalidade excepcional e desfrutar de serviços de alto nível onde quer que se vá. Cada nova província oferece oportunidades únicas e memórias positivas esperando para serem descobertas.”
Estudos indicam que turistas que exploram várias províncias apresentam maior nível de satisfação, maior engajamento com o destino e consumo mais diversificado de produtos turísticos. Esse movimento também ajuda a reduzir a concentração excessiva de visitantes em determinados pontos do país, mitigando riscos de overtourism e abrindo espaço para o desenvolvimento de regiões menos exploradas.
A diversidade de paisagens, culturas, vida selvagem e patrimônios históricos da África do Sul não está concentrada em uma única região — ela se estende por todo o território. Ainda assim, a maioria dos visitantes conhece apenas uma pequena parte desse potencial.
A importância de uma ação conjunta do setor
Para mudar esse cenário, especialistas apontam que é necessário mais do que intenção: é preciso uma ação coordenada de toda a indústria do turismo.
Os viajantes precisam de informações mais claras e inspiradoras sobre o que podem experimentar em diferentes províncias. Isso inclui orientações sobre onde se hospedar, quais atividades estão disponíveis e informações práticas sobre segurança e logística da viagem. O uso de imagens e vídeos de qualidade também é considerado fundamental para incentivar turistas a explorar destinos além das rotas mais conhecidas.
A confiança também desempenha um papel importante nesse processo. Influenciadores confiáveis, histórias autênticas e avaliações credíveis ajudam a reduzir a percepção de risco e aumentam a confiança dos viajantes para explorar áreas menos populares.
Outro ponto essencial é reforçar a comunicação sobre conectividade, mostrando que o país é fácil de percorrer por terra, ar ou água e que combinar diferentes províncias em um mesmo roteiro é uma experiência acessível e fluida.
O papel do trade turístico
O setor turístico também tem papel central nessa transformação. A capacitação de operadores e agentes de viagem é considerada essencial para que eles consigam montar e vender itinerários que incluam várias províncias com segurança e confiança.
Além disso, é importante demonstrar de forma clara a rentabilidade de roteiros mais longos. Em feiras internacionais e plataformas de promoção turística, todas as províncias precisam estar representadas, e experiências fora das rotas tradicionais devem ser apresentadas como diferenciais estratégicos, não apenas como complementos.
As estratégias de recepção de imprensa e parceiros comerciais também vêm evoluindo. Cada vez mais, itinerários organizados para jornalistas e operadores incluem várias províncias, reforçando a ideia de que a África do Sul deve ser vivida como uma jornada conectada, e não apenas como um único destino.
Um imperativo estratégico para o turismo
Para especialistas do setor, ampliar a distribuição geográfica dos visitantes não é apenas uma métrica de desempenho, mas um imperativo estratégico ligado diretamente à inclusão econômica, à sustentabilidade e à competitividade de longo prazo do turismo.
Quando os viajantes se deslocam entre diferentes regiões, permanecem mais tempo no país, gastam mais e distribuem melhor os benefícios econômicos entre as comunidades locais. Ao mesmo tempo, a pressão sobre destinos já saturados diminui e a diversidade do país passa a ser explorada de forma mais completa.
Com 91% dos turistas internacionais ainda visitando apenas uma província, o potencial de crescimento é evidente. A África do Sul reúne paisagens, cultura, experiências e histórias capazes de atrair visitantes para todo o seu território. O desafio agora é transformar esse potencial em realidade por meio de uma atuação conjunta do setor.
No fim das contas, a distribuição provincial não diz respeito apenas à geografia — trata-se de desbloquear todo o valor turístico do país.
Fonte: South African Tourism