O presidente executivo da CLIA Brasil, Marco Ferraz, apresentou números que mostram a expansão global da atividade e defendeu avanços estruturais para que o Brasil amplie sua participação nesse mercado.
A edição brasileira do Cruise 360 reuniu cerca de 750 participantes entre profissionais do turismo, representantes de companhias marítimas, patrocinadores e organizadores. Segundo Marco Ferraz, o número reflete o fortalecimento do interesse pelo setor e a consolidação do evento no país.
“A gente estava com 679 inscritos e, somando equipe e participantes, ficamos perto de 750 ou 780 pessoas aqui dentro”, afirmou Ferraz.
Para o executivo, a demanda poderia ser ainda maior caso o espaço físico permitisse. “Se tivesse mais espaço, a gente teria mais gente e mais patrocinadores”, disse.
Ele explicou que o crescimento do encontro acompanha o momento da indústria global de cruzeiros, que voltou a registrar expansão consistente após o período da pandemia.
Perfil do passageiro mostra diversidade de públicos
Os dados apresentados pela CLIA indicam que o perfil do cruzeirista está cada vez mais diverso. A idade média global dos passageiros gira em torno de 46 anos e não há predominância de uma única geração.
Ferraz destacou que diferentes formatos de viagem atendem públicos distintos. Cruzeiros mais longos costumam atrair viajantes mais experientes, enquanto minicruzeiros e roteiros temáticos conquistam passageiros mais jovens.
Segundo ele, compreender o perfil do viajante é fundamental para oferecer experiências personalizadas. “A gente pergunta como a pessoa gosta de viajar, que tipo de hotel prefere, se gosta mais de história, praia ou compras. Com isso dá para adaptar o roteiro ao interesse de cada viajante”, explicou.
Outro dado relevante é a alta intenção de retorno. Pesquisas mostram que a grande maioria dos passageiros pretende repetir a experiência em um cruzeiro.
Brasil como destino e origem de cruzeiristas
O Brasil ocupa posição estratégica no setor por atuar ao mesmo tempo como mercado emissor e destino turístico para cruzeiros.
De acordo com Ferraz, cerca de 776 mil brasileiros embarcam anualmente em viagens de cruzeiro pelo mundo. Ao mesmo tempo, o país recebe turistas internacionais, especialmente da América do Sul.
“Os argentinos que vêm para cá são mais de 100 mil em uma temporada”, afirmou.
Além dos vizinhos sul-americanos, o país também recebe viajantes de mercados mais distantes, como Europa, Estados Unidos e Austrália, especialmente em navios de expedição.
Apesar disso, Ferraz avalia que ainda existe grande espaço para crescimento, principalmente em regiões menos exploradas.
“A gente ainda tem muitos segredos, como o Norte e o Nordeste, que são pouco explorados”, disse.
Potencial dos cruzeiros fluviais na América do Sul
Um dos segmentos com grande potencial de expansão na região é o de cruzeiros fluviais. Atualmente, a oferta ainda é limitada quando comparada a destinos tradicionais da Europa ou da Ásia.
Ferraz explicou que a CLIA reúne atualmente 27 companhias de cruzeiros fluviais associadas, com mais de 200 embarcações operando principalmente na Europa, no sul dos Estados Unidos, no Norte da África e no sul da Ásia.
Na América do Sul, entretanto, o desenvolvimento ainda é incipiente.
“A gente tem muito pouco de oferta. O potencial é enorme, com rios como o Amazonas e o Paraguai”, afirmou.
Infraestrutura e custos ainda limitam expansão
Apesar do crescimento do mercado, o executivo destacou que o Brasil ainda enfrenta desafios estruturais que impactam a competitividade do setor.
Entre os principais obstáculos estão custos operacionais elevados, burocracia e necessidade de modernização regulatória.
Ferraz citou, por exemplo, o processo de emissão de vistos para tripulantes estrangeiros que trabalham nos navios.
“O visto demora para sair e ainda é manual. A gente precisa mandar passaporte para funcionário”, explicou.
Além disso, segundo ele, questões trabalhistas e custos portuários também afetam o ambiente de negócios.
A CLIA tem trabalhado em conjunto com órgãos governamentais e o Congresso Nacional para buscar soluções que tornem o país mais atrativo para as companhias marítimas.
Gestão do fluxo turístico nas cidades portuárias
Em destinos internacionais muito visitados, como Barcelona e cidades da Grécia, o crescimento do turismo gerou debates sobre o chamado overtourism, quando o excesso de visitantes pressiona a infraestrutura local.
Ferraz explicou que, no Brasil, esse cenário ainda não é predominante, mas a indústria acompanha o tema com atenção.
Ele destacou que o setor de cruzeiros possui vantagem na gestão do fluxo de turistas, já que as escalas são planejadas com antecedência.
“A gente sabe quando chega, a hora e quantos passageiros vão desembarcar. Isso permite organizar o fluxo pela cidade”, afirmou.
Segundo ele, a indústria está aberta a dialogar com autoridades locais para organizar melhor as visitas e distribuir os turistas por diferentes regiões do destino.
Mais navios e oportunidades para o Brasil
Dados apresentados pela CLIA mostram que o setor global segue em expansão. A indústria opera atualmente cerca de 310 navios e deverá receber 13 novas embarcações apenas neste ano, ampliando a capacidade em aproximadamente 27 mil leitos.
Até 2036, a previsão é que mais 75 navios entrem em operação, acrescentando cerca de 200 mil novos leitos à frota mundial.
Para Ferraz, esse crescimento representa uma oportunidade importante para destinos emergentes, como o Brasil.
Na última temporada, 93 navios operaram na América do Sul, mas apenas 43 passaram pelo Brasil.
“Tem mais navios diferentes em Ushuaia do que no Brasil”, afirmou.
Ele defende que melhorias estruturais e maior previsibilidade regulatória podem ajudar o país a atrair mais embarcações nos próximos anos.
Quebrar mitos sobre viagens de cruzeiro
Mesmo com a expansão do setor, ainda existem percepções equivocadas que afastam parte dos viajantes da experiência de um cruzeiro.
Entre os mitos mais comuns estão a ideia de que os navios são apertados, balançam demais ou têm excesso de passageiros.
Ferraz afirma que essas impressões não correspondem à realidade atual das embarcações.
“As pessoas acham que vão ficar claustrofóbicas, mas os navios são projetados com muitos espaços diferentes”, explicou.
Outro diferencial apontado por ele é a possibilidade de visitar vários destinos sem a necessidade de trocar de hotel ou reorganizar bagagens ao longo da viagem.
“Você visita vários lugares sem ter que fazer mala, sem fazer check-in e sem embarque e desembarque toda hora. Cada dia que você abre a janela tem um cenário diferente”, disse.
Para o executivo, o custo-benefício também é um fator relevante, especialmente em viagens mais longas que permitem conhecer diversos destinos em uma única experiência.
Reportagem e foto: Mary de Aquino.