Lara Teixeira, Vice-Presidente Sênior de Design & Technical Services Américas da Accor, revela como transformar hotéis em experiências de bem-estar e alta performance

Com uma trajetória que atravessa todos os elos da hotelaria, a executiva detalha como design, manutenção preventiva e sustentabilidade moldam empreendimentos mais eficientes, acolhedores e lucrativos

(Source: Mary de Aquino.)

Arquiteta formada no início da década de 1990, Lara Teixeira construiu uma carreira sólida e plural dentro da hotelaria. “Eu sou arquiteta, com muitos, muitos anos de experiência, me formei em 92, 93, há bastante tempo. Trabalho com hotelaria desde 94, então praticamente a minha vida toda foi dedicada à hotelaria”, afirma Teixeira, ao resumir uma trajetória que passa por construtoras, incorporadoras, concorrentes do setor e até um escritório próprio especializado em arquitetura hoteleira.

Hoje, como Vice-Presidente Sênior de Design & Technical Services Américas da Accor, ela lidera uma equipe de 15 profissionais distribuídos pelo Brasil, México e Chile, responsável por garantir que novos hotéis, conversões e reformas atendam aos padrões técnicos, estéticos e operacionais do grupo.

Uma visão ampla de todos os lados da hotelaria

A experiência de Lara Teixeira vai além do desenho de projetos. Ao longo das décadas, ela esteve do lado do desenvolvedor, da construtora, do operador e do investidor. Essa vivência múltipla, segundo a executiva, é um diferencial estratégico.

“Eu já fui vários players da hotelaria, a gente viu vários lados da mesa, do lado do contratante, do contratado, do desenvolvedor, da construtora. Isso acaba dando uma visão bem ampla de como funciona o negócio hoteleiro”, explica Teixeira.

Esse olhar sistêmico se traduz na prática diária. Após a assinatura de um novo contrato, a área comandada por ela assume o acompanhamento integral do projeto. “Assim que o contrato é assinado, nós recebemos esse contrato e vamos nos assegurar de que os hotéis são bem projetados, bem construídos”, afirma. O acompanhamento pode durar de dois a quatro anos, até que o empreendimento esteja construído, equipado, mobiliado, testado e pronto para ser entregue à operação.

Novas aberturas, reformas e o cuidado com o ativo

Além das novas unidades, a vice-presidência também responde por reformas estratégicas e atualizações de marca. No Pullman São Paulo Ibirapuera, por exemplo, a equipe coordenou a implementação de novos conceitos nos restaurantes e em parte dos apartamentos. Já o TRIBE Belo Horizonte Savassi é citado por Teixeira como referência em integração de design contemporâneo e experiência.

Para a executiva, o primeiro passo em qualquer retrofit é entender a real necessidade do negócio. “Muito do design é simplesmente uma resposta a uma necessidade. Não ajuda em nada ser só bonito. O hotel tem que ser muito mais que bonito”, destaca.

A análise começa com a operação, passa por diagnósticos técnicos e chega, inevitavelmente, ao orçamento disponível. “Não adianta sugerir uma renovação se o proprietário não tem verba para isso”, pontua.

Quando o recurso é limitado, a solução é estratégica. “Se realmente o valor é muito pequeno, a gente orienta que faça um projeto bom e execute em fases”, explica Teixeira. A lógica é clara: priorizar o planejamento completo, mesmo que a execução ocorra em etapas, evitando retrabalhos e desperdícios.

Manutenção preventiva como pilar de segurança e economia

Após a entrega do hotel, o trabalho continua. A área também responde pela orientação de manutenção preventiva, uma frente considerada essencial para a longevidade do ativo.

“A gente incentiva manutenção preventiva e não corretiva. Isso é muito mais barato”, afirma Teixeira. Segundo ela, equipamentos revisados regularmente podem ter aumento de vida útil entre 25% e 30%.

Para garantir padronização e controle, a equipe desenvolveu internamente o software Prop +, já implementado na quase totalidade da rede nas Américas. “Nós somos super orgulhosos desse software, porque é prata da casa. O mais importante é que ele é fácil de usar”, ressalta.

A plataforma organiza cronogramas de revisão, alerta para itens críticos e permite acompanhamento centralizado. “Lá na minha mesa eu sei o que ele está fazendo”, diz Teixeira, ao explicar que relatórios semanais e mensais permitem identificar hotéis que não estejam cumprindo exigências essenciais, como revisão de sistemas de incêndio.

Para ela, trata-se de uma questão que ultrapassa a gestão individual de cada unidade. Ela fala em responsabilidade da marca sobre padrões mínimos de segurança para funcionários e hóspedes.

Sustentabilidade e eficiência energética como vantagem competitiva

A manutenção adequada também se conecta diretamente à sustentabilidade. Um hotel bem cuidado consome menos água, menos energia e opera com equipamentos mais eficientes.

Lara Teixeira cita como exemplo a troca de sistema de ar-condicionado no Pullman Ibirapuera. Houve investimento inicial, mas o retorno veio rapidamente, com redução significativa na conta de energia. “É um equipamento muito mais moderno, que vai funcionar melhor e gerar uma economia enorme”, destaca.

Segundo a executiva, estudos de caso estão sendo estruturados para demonstrar como iniciativas técnicas impactam diretamente a performance financeira e ambiental dos empreendimentos.

Bem-estar como conceito amplo e personalizado

Quando o assunto é tendência, Lara Teixeira aponta para uma abordagem cada vez mais holística do bem-estar. Para ela, não existe uma fórmula única.

“O bem-estar é diferente para cada hóspede”, afirma. Há quem busque tranquilidade e quem prefira ambientes vibrantes. Por isso, a estratégia é criar espaços versáteis, que possam se transformar ao longo do dia.

A integração com elementos naturais é outro ponto-chave. Iluminação natural, ventilação, áreas externas protegidas e paisagismo são recursos que elevam a experiência. No Grand Mercure São Paulo Vila Olímpia, a criação de um ambiente externo integrado ao restaurante ampliou o uso do espaço e reforçou a sensação de conexão com a natureza.

“Quando você traz luz natural, grandes aberturas, ventilação, você transforma o ambiente num lugar agradável. Às vezes a pessoa nem sabe explicar o porquê”, comenta.

Diversidade de mobiliário e inclusão como padrão

O conceito de bem-estar também passa pela diversidade de mobiliário e pela inclusão plena. “Diferentes mobiliários para diferentes necessidades de hóspedes”, resume Teixeira, ao explicar que idade, estatura e condições físicas exigem soluções variadas.

A acessibilidade, para ela, não pode ser tratada como exceção. “Eu não posso fazer com que o hotel tenha áreas somente para pessoas com necessidades diferentes. Todas as áreas precisam ser acessíveis”, defende.

Isso significa garantir acesso à piscina, academia, restaurantes e demais espaços, integrando soluções ao design, sem estigmatização. A distribuição de apartamentos adaptados em diferentes andares também é incentivada. “A gente precisa fazer com que o hóspede se sinta acolhido”, conclui.

Com uma carreira inteiramente dedicada à hotelaria, Lara Teixeira demonstra que projetar hotéis vai muito além de estética. É um exercício contínuo de estratégia, técnica, sensibilidade e responsabilidade — onde cada detalhe impacta a experiência do hóspede e a sustentabilidade do negócio.

Reportagem e foto: Mary de Aquino.


 


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